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Mensagem; Leitura coletiva do livro Mensagem de Fernando Pessoa
Topic Started: Jul 8 2011, 10:26 PM (3,053 Views)
Watson
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002
[ *  * ]
Poirot
 
Essa idéia do poeta como receptor de uma mensagem divina abordada pelo Felipe (e seja bem-vindo ) pode ser encontrada em várias obras poéticas. Desde a Divina Comédia até o nosso indianista Gonçalves Dias dizendo que falavam os deuses "nos cantos do Piaga". Parece-me que Pessoa se filia assim a uma grande tradição literária e bebe em muitas fontes que lhe são anteriores.


Aliás, essa questão é desenvolvida mais à frente (na parte em que fala de Deus re do homem)... Mas bem, tenho que me segurar para não começar antes da hora....
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Filipe
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Mavvy: era da 2º mesmo que estava à procura. XD
Poirot: obrigado! Sobre Mensagem, não sei, deve ser o desejo de Pessoa para as pessoas. (que trocadilho...)
Watson: ah, no meu livro de história ele não constava na lista. Mas interessante. =o

O poeta da profecia não é Pessoa, quer dizer, ainda não se chegou a um consenso sobre isso. Pessoa é apenas um poeta, o intérprete da vontade divina, que lhe confere um pouco o nome de herói (já falo mais em baixo).

Vamos pelo início: Mensagem é é um texto épico-lírico, concilia dois modos literários: matéria épica de exaltação de um passado heróico com a expressão lírica de atitude intencionalmente introspectiva (paralela-se com os Lusíadas). Mensagem pretende exaltar o nacionalismo, ou seja, pessoa também mantém-se fiel à Pátria e dela tem um forte desejo de regeneração; Mensagem é escrita segundo os ideias lusitanos e é influenciada pela poética saudosista;.

Agora sobre o Sebastianismo pessoano:
D. Sebastião veio ao trono num tempo de desespero, pois estava em risco a independência de Portugal dos espanhóis, e então desde pequeno foi visto como um símbolo de esperança, de salvação, redenção. Participou depois na batalha de Alcácer-Quibir e desapareceu, até hoje não se sabe o paredeiro dele, se foi morto, desapareceu... Mas continuou a ser símbolo de esperança, e daí veio o mito de sebastinismo, que D. Sebastião viria numa noite de nevoeiro salvar a Pátria da escuridão (entenda-se em qualquer sentido).

(Ah, ainda bem que me lembrei; para Pessoa, Pátria significa cultura e língua, não esquecer!)

De acordo com o sebastianismo pessoano, Pessoa proclama o ressurgimento de um nacionalismo profético que abandone o conceito tradicional de Pátria, marcado por limitações geo-políticas, e que avance num sentido linguístico e cultural. Pessoa transforma aquilo que considera "um movimento religioso em volta de uma figura nacional, no sentido de um mito no motivo central, profético da, já agora, 3º parte de Mensagem.

Pessoa mitifica o povo português, na medida que afigura-se como predestinado, eleito por Deus. Ao longo da obra pressente-se que Portugal é uma nação escolhida, a quem está reservado um papel cimeiro.

O sebastianismo pessoano é a mola impulsionadora que faz com que os portugueses vão à procura de uma "Índia nova", que não existe no espaço, em naus qye são construídas daquilo que os sonhos são feitos.
Ou seja, o sebastianismo pessoano é o desejo latente de renovação nacional não pela mão de D. Sebastião histórico, morto em Alcácer-Quibir (Pessoa admite o que realmente aconteceu), mas o D. Sebastião míticom uma ideia, um símbolo, uma possibilidade de redenção nacional, quando alguém assumir o seu sonho, a seua "loucura" e abrir caminho à construção do Quinto Império do espírito e da fraternidade universal.

Amanhã eu esclareço o Quinto Império e o herói pessoano.
Agora deixou-vos debater sobre isto. =D


Edited by Filipe, Jul 13 2011, 07:40 PM.
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Poirot
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001
[ * ]
Watson
 
Seria isso uma profecia ? Admitida tal hipótese indago: será que ela já se cumpriu ?


Anteontem comprei uma outra edição de Mensagem para acompanhar as discussões; desta feita, da Hedra. Esta edição tem uma introdução muito interessante de Caio Gagliardi. O texto pode ser lido integralmente pelo Google Books no seguinte endereço.

Afirma o autor da introdução algo muito ligado ao dito por Watson:

Quote:
 
(...) levado pela ambição intelectual, será Pessoa um gênio invejoso e obcecado por desbancar, ou deslocar de lugar, o gênio anterior (Camões).


Segundo ainda a introdução, Pessoa realizaria o "assassinato ritual de Camões" em Mensagem. Se, assim é, posso adotar como mote desta leitura coletiva, as próprias palavras de Camões:

Quote:
 
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.


Filipe
 
D. Sebastião veio ao trono num tempo de desespero, pois estava em risco a independência de Portugal dos espanhóis, e então desde pequeno foi visto como um símbolo de esperança, de salvação, redenção. Participou depois na batalha de Alcácer-Quibir e desapareceu, até hoje não se sabe o paredeiro dele, se foi morto, desapareceu... Mas continuou a ser símbolo de esperança, e daí veio o mito de sebastinismo, que D. Sebastião viria numa noite de nevoeiro salvar a Pátria da escuridão (entenda-se em qualquer sentido).


Pela leitura da introdução nesta minha edição da Hedra, pude ver que o mito de sebastinismo (que eu desconhecia) é bastante forte em Mensagem. Esta idéia de um salvador, um messias é tão constante em várias obras artísticas, especialmente em literatura, que me traz toneladas de referências imediatas: do próprio Cristo, de Muad'dib na ótima obra de ficção científica "Duna", de 'Neo' em Matrix, e, até mesmo, de Churchill na música 'Fool's Overture' do Supertramp. Mas me agradei especialmente da idéia de que D. Sebastião voltaria transfigurado, modificado, disfarçado em outro ser ou outra natureza, de onde Pessoa teria tirado o título da parte final de Mensagem: O Encoberto.

Quote:
 
Pessoa mitifica o povo português, na medida que afigura-se como predestinado, eleito por Deus. Ao longo da obra pressente-se que Portugal é uma nação escolhida, a quem está reservado um papel cimeiro.


Já correndo o risco de "viajar", mas não posso deixar de me perguntar se não é este um aspecto inerente ao pensamento humano, muito além de ser de Portugal. Não é da nossa essência acreditar estarmos colocados em posição privilegiada no cosmos, no planeta e entre os animais; e que possa existir algo como o destino, a predestinação ou um "propósito" último para o existir, um objetivo final a ser alcançado?

Por tudo isso, enxergo muita beleza em Mensagem. Caso fosse um poema que dissesse respeito exclusivamente ao passado de Portugal e a suas pretensões futuras, teria um escopo muito limitado e não teria alcançado toda a fama que possui. Em verdade, ao discorrer sobre esses temas, Pessoa trata de idéias que são muito humanas e universais.




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Watson
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002
[ *  * ]
Filipe
 
Vamos pelo início: Mensagem é é um texto épico-lírico, concilia dois modos literários: matéria épica de exaltação de um passado heróico com a expressão lírica de atitude intencionalmente introspectiva (paralela-se com os Lusíadas). Mensagem pretende exaltar o nacionalismo, ou seja, pessoa também mantém-se fiel à Pátria e dela tem um forte desejo de regeneração; Mensagem é escrita segundo os ideias lusitanos e é influenciada pela poética saudosista;.


Felipe, não sei se pela extensão (se não me engano um dos critérios utilizados por Aristóteles na poética), ou pelos vários pontos de semelhança com os demais épicos (principalmente com a Odisséia e a Eneida), mas tenho a impressão que Os Lusíadas se aproxima muito mais do épico puro, enquanto Mensagem sim parece um grande misto de lírica e épica, que ao meu ver não seria nunca passível de enquadramento como épico puro. Quanto à exaltação ao nacionalismo, mesmo que este seja "de letras" ou de "língua" (afinal, a pátria de Pessoa é a língua portuguesa), acho que Pessoa não conseguiu escapar a inegável influência de Camões. Basta ver que a própria estrutura do poema, já compreende as armas (=brasão, insígnia) tema evocado por Camões logo na proposição dos "Lusíadas" que começa com "As armas e os barões assinalados", trabalhando ambos os poemas com a idéia de cantar a raça.

Felipe
 
Agora sobre o Sebastianismo pessoano:
D. Sebastião veio ao trono num tempo de desespero, pois estava em risco a independência de Portugal dos espanhóis, e então desde pequeno foi visto como um símbolo de esperança, de salvação, redenção. Participou depois na batalha de Alcácer-Quibir e desapareceu, até hoje não se sabe o paredeiro dele, se foi morto, desapareceu... Mas continuou a ser símbolo de esperança, e daí veio o mito de sebastinismo, que D. Sebastião viria numa noite de nevoeiro salvar a Pátria da escuridão (entenda-se em qualquer sentido).

Poirot
 
Pela leitura da introdução nesta minha edição da Hedra, pude ver que o mito de sebastinismo (que eu desconhecia) é bastante forte em Mensagem. Esta idéia de um salvador, um messias é tão constante em várias obras artísticas, especialmente em literatura, que me traz toneladas de referências imediatas: do próprio Cristo, de Muad'dib na ótima obra de ficção científica "Duna", de 'Neo' em Matrix, e, até mesmo, de Churchill na música 'Fool's Overture' do Supertramp. Mas me agradei especialmente da idéia de que D. Sebastião voltaria transfigurado, modificado, disfarçado em outro ser ou outra natureza, de onde Pessoa teria tirado o título da parte final de Mensagem: O Encoberto.


Vi também uma similaridade com o mito do Barbarossa (imperador alemão que dorme numa caverna e um dia irá acordar para também salvar a pátria), me parecendo que a origem das idéias centrais do mito estão delineadas se não me engano no Apocalipse de João ou outro livro da Biblia (no episódio em que o Messias volta para governar com os seus e combater as forças do mal). Quanto ao disfarce, acho enorme a similaridade com a parte final da Odisséia, em que Ulisses, após vários anos de ausência, volta a Ítaca disfarçado para salvar os seus da opressão dos pretendentes.

Filipe
 
O sebastianismo pessoano é a mola impulsionadora que faz com que os portugueses vão à procura de uma "Índia nova", que não existe no espaço, em naus qye são construídas daquilo que os sonhos são feitos.
Ou seja, o sebastianismo pessoano é o desejo latente de renovação nacional não pela mão de D. Sebastião histórico, morto em Alcácer-Quibir (Pessoa admite o que realmente aconteceu), mas o D. Sebastião míticom uma ideia, um símbolo, uma possibilidade de redenção nacional, quando alguém assumir o seu sonho, a seua "loucura" e abrir caminho à construção do Quinto Império do espírito e da fraternidade universal.


A partir do que vc falou, não seria Dom Sebastião uma personificação da esperança na metafísica Pessoana ? Talvez similar ao símbolo representado pelo Redentor na metafísica da religião cristã ?

Poirot
 
Anteontem comprei uma outra edição de Mensagem para acompanhar as discussões; desta feita, da Hedra. Esta edição tem uma introdução muito interessante de Caio Gagliardi. O texto pode ser lido integralmente pelo Google Books no seguinte endereço.


Valeu pelo link! Além da interessante introdução, o livro ainda traz uma iconografia com as correspondências entre a estrutura do poema e o brasão português (parece que, apenas o Grypho não restou bem delimitado) .

Poirot
 
Segundo ainda a introdução, Pessoa realizaria o "assassinato ritual de Camões" em Mensagem. Se, assim é, posso adotar como mote desta leitura coletiva, as próprias palavras de Camões:


Pela terminologia utilizada, não há dúvidas que o autor é um leitor (diretamente ou por meio de terceiro) do Golden Bough. Deu até vontade de ler um livro que tenho que compara o TS Elliot com o Fernando Pessoa para ver se dá alguma luz sobre a origem de tal idéia (só que pra isso tenho que localizá-lo aqui na minha biblioteca...). O problema é que no assassinato ritual, o assassino tem que tomar o lugar do Rei, será que decorre daí o patriotismo de Pessoa ?

Poirot
 
Já correndo o risco de "viajar", mas não posso deixar de me perguntar se não é este um aspecto inerente ao pensamento humano, muito além de ser de Portugal. Não é da nossa essência acreditar estarmos colocados em posição privilegiada no cosmos, no planeta e entre os animais; e que possa existir algo como o destino, a predestinação ou um "propósito" último para o existir, um objetivo final a ser alcançado?


Acho que isso tem uma razão de ser. Afinal, como diria o Borges: "Siglos e siglos y sólo en el presente ocurren los hechos; innumerables hombres en el aire, en la tierra y el mar, y todo lo que realmente pasa me pasa a mí" (El jardin de senderos que se bifurcan in Ficciones)
Edited by Watson, Jul 16 2011, 12:31 AM.
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Mavericco
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Nel mezzo del cammin
[ *  * ]
Mensagem é, de fato, um livro impressionante. Tem frase smarcantes, poemas belíssimos. Pessoa é um poeta fantástico.

A grande diferença que pude notar com Os Lusíadas reside no fato do épico camoniano exaltar o passado tendo em vista o presente (Cantando espalharei por toda parte, / Se a tanto me ajudar o engenho e arte.), ao passo que Mensagem exalta o passado tendo em vista o futuro. Os artifícios pessoanos são basicamente os mesmos camonianos, indo desde o canto aos reis (E também as memórias gloriosas / Daqueles Reis, que foram dilatando / A Fé, o Império, e as terras viciosas / De África e de Ásia andaram devastando;); os feitos gloriosos do passado [em nosso caso, as Navegações] (Por mares nunca de antes navegados, / Passaram ainda além da Taprobana, / Em perigos e guerras esforçados, / Mais do que prometia a força humana,); o reino (E entre gente remota edificaram / Novo Reino, que tanto sublimaram;); os mártires (E aqueles, que por obras valerosas / Se vão da lei da morte libertando;).

[aliás, de todos os épicos "de peso" desde o fim da Roma Antiga, Os Lusíadas é o que mais se aproxima da Eneida... Basta observar os outros e perceber isto nitidamente: os Orlandos são cavaleirescos; A Divina Comédia não é um épico propriamente dito {se baseia, basicamente, apenas no Canto VI da Eneida}; o Paraíso Perdido é cristão protestante {e mesmo que não fosse, é posterior a Camões -- Milton foi influenciado por Camões}; o Jerusalém Libertada é, também, influenciado por Os Lusíadas {Tasso dedica um soneto a Camões}; e por aí vai... Acho que o único que mais se aproxima desta condição é o Afrika do Petrarca -- mas este eu julgo estar mais próximo de Lucano que de Virgilio]

A diferença é que o estilo pessoano se distancia da fórmula clássica de evocação épica, consagrada por Virgílio -- mais por Virgílio do que por Homero (grande parte dos poetas épicos não sabiam grego). Ou melhor, não se distancia tanto -- mas isto julgo ser mais pertinente comentar no desenrolar da leitura. O fato é que o poema pessoano tem como objetivo exaltar a nação Portuguesa (modelo virgiliano [exaltação a Roma]) e a exaltação dos feitos de um heroi, de um varão assinalado (no modelo virgiliano, Eneias). Em nosso caso, este heroi seria regido por uma carga simbólica e profética que muito se aproxima da IV Écloga de Virgílio, onde o grande mantuano canta da vinda de um garoto que traria consigo a Era de Ouro. Este tom arcanoso se estende por todo o poema, dando ao "Mensagem" mais um tom de "Profecia" de algum arúspice (tão encontrados nos épicos) do que de um poeta, de um aedo ou cantor propriamente dito (Homero é comumente identificado como Demódoco, o Aedo dos Feácios na Odisseia).

Aliás, como diria Pessoa, em um talvez certo desdém em relação ao paganismo (o mesmo camoniano [estrofe III, canto I]), "O mito é o nada que é tudo."; pois Portugal nasce de um mito, pois Portugal nasce das entranhas da Grécia antiga ("E toldam-lhe românticos cabelos / Olhos gregos, lembrando.")....
Edited by Mavericco, Jul 16 2011, 01:49 AM.
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Poirot
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001
[ * ]
Watson
 
Além da interessante introdução, o livro ainda traz uma iconografia com as correspondências entre a estrutura do poema e o brasão português (parece que, apenas o Grypho não restou bem delimitado)


E, para maior comodidade daqueles que não seguiram o link, aproveito para reproduzir aqui a imagem do Brasão português, no qual Fernando Pessoa se baseou para constituir as partes de Mensagem:

Posted Image

Watson
 
Acho que isso tem uma razão de ser. Afinal, como diria o Borges: "Siglos e siglos y sólo en el presente ocurren los hechos; innumerables hombres en el aire, en la tierra y el mar, y todo lo que realmente pasa me pasa a mí" (El jardin de senderos que se bifurcan in Ficciones)


E não é surpreendente esta citação de Borges? Muito além de sua profundidade, é espantosa a sua capacidade de poder ser utilizada nas mais variadas discussões. rs.

Mavericco, quisera eu poder participar das discussões da semelhança de Mensagem com os grandes épicos, mas a minha falta de conhecimento da área me impede. :-/
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Poirot
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001
[ * ]
E lá vamos nós:

Quote:
 
até 18/07 - Prazo para obtenção do livro e discussão sobre aspectos gerais da obra
18/07 a 24/07 - Primeira Parte - Os Campos: Os Castelos
25/07 a 31/07 - Primeira Parte - Os Campos: As Quinas; A Coroa; O Timbre
01/08 a 07/08 - Segunda Parte - O Mar Português: de I - O Infante até VI - Os Colombos
08/08 a 14/08 - Segunda Parte - O Mar Português: de VII - Ocidente até XII - Prece
15/08 a 21/08 - Terceira Parte - O Encoberto
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Watson
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002
[ *  * ]
Mavericco
 
[aliás, de todos os épicos "de peso" desde o fim da Roma Antiga, Os Lusíadas é o que mais se aproxima da Eneida... Basta observar os outros e perceber isto nitidamente: os Orlandos são cavaleirescos; A Divina Comédia não é um épico propriamente dito {se baseia, basicamente, apenas no Canto VI da Eneida}; o Paraíso Perdido é cristão protestante {e mesmo que não fosse, é posterior a Camões -- Milton foi influenciado por Camões}; o Jerusalém Libertada é, também, influenciado por Os Lusíadas {Tasso dedica um soneto a Camões}; e por aí vai... Acho que o único que mais se aproxima desta condição é o Afrika do Petrarca -- mas este eu julgo estar mais próximo de Lucano que de Virgilio]



De fato, a tradição afirma que Os Lusíadas foram compostos à imagem da Eneida. Aliás, sobre o tema existe uma edição parcial dos Lusíadas Comentada e comparada com a Ilíada, a Odisséia e a Eneida, de autoria de Hennio Morgan Birchal lançada pela Landy Editora, na qual o autor discute essa afirmação (sobre a Eneida), concluindo que a mesma não é de todo verdade, haja vista a forte influência também da Odisséia (principalmente no que tange ao seu caráter marítimo) e, em bem menor grau, da Ilíada. Na mesma edição, aliás, o autor apresenta como fatores distintivos dos Lusíadas a glorificação das façanhas da pátria (e não do herói como nos demais épicos) e a idéia de uma missão que seria o pleno domínio do homem universal sobre as forças da natureza (velhos do Restelo, Adamastores e Bacos) para estabelecer seu reinado sobre a Terra. Tenho a impressão que esses dois elementos estão presentes em Mensagem, o primeiro na própria estrutura do poema (que canta a salvação da raça) e o segundo na oposição entre o filho do homem e a natureza (Que Deus o Christo definiu: /Assim o opoz à Natureza /E Filho o ungiu). Quanto ao caráter prospectivo de Mensagem, acho que você tem razão, se bem que haja vista o caráter profético do ensaio sobre a Nova Poesia Portuguesa, pode ser que a sibila no caso de Mensagem seja o próprio autor, o que configura mais uma peculiaridade dessa obra :D .

Mavericco
 
Em nosso caso, este heroi seria regido por uma carga simbólica e profética que muito se aproxima da IV Écloga de Virgílio, onde o grande mantuano canta da vinda de um garoto que traria consigo a Era de Ouro. Este tom arcanoso se estende por todo o poema, dando ao "Mensagem" mais um tom de "Profecia" de algum arúspice (tão encontrados nos épicos) do que de um poeta, de um aedo ou cantor propriamente dito (Homero é comumente identificado como Demódoco, o Aedo dos Feácios na Odisseia).

Mavericco, tem como você postar as passagens da IV Ecloga relacionadas a esse tema... É que não tenho aqui nenhuma edição das mesmas....

Mavericco
 
Aliás, como diria Pessoa, em um talvez certo desdém em relação ao paganismo (o mesmo camoniano [estrofe III, canto I]), "O mito é o nada que é tudo."; pois Portugal nasce de um mito, pois Portugal nasce das entranhas da Grécia antiga ("E toldam-lhe românticos cabelos / Olhos gregos, lembrando.")....



Não sei se isso chega a ser desdém. O mytho pode ser nada como história, mas é tudo como descrição das sensações humanas (padrões universais e imemoriais que se repetem com o tempo), podendo assim influir na história (para ficarmos no Sebastianismo, basta lembrar Canudos). Considerando-se a clara vinculação de Pessoa à poesia metafísica inglesa(exteriorizada, dentre outros fatos, pela sua grande admiração por Whitman), bem como o fato de ser provável leitor de William James, essa interpretação é, aliás, bem plausível. Mormente ao se considerar o restante do capítulo sobre Ulisses (fundador mítico da cidade de Lisboa):

PRIMEIRO ULYSSES
 

Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos creou

Assim a çemda se escorre
A entrar na realidade.
E a fecunda-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre


Poirot
 
E não é surpreendente esta citação de Borges? Muito além de sua profundidade, é espantosa a sua capacidade de poder ser utilizada nas mais variadas discussões.


É verdade! Mas as similaridades de Borges e Pessoa não param por aí. Ambos nasceram no século XIX e são os representantes máximos das respectivas literaturas nacionais no século XX, ambos começaram a ler e escrever inicialmente em inglês, ambos escreveram sobre Walt Whitman, ambos citaram a mesma idéia de Spencer em suas obras, ambos tiveram como maior inspiração nacional obras escritas no século XVI por ex-detentos que se tornaram nome dos respectivos prêmios máximos das suas literaturas e por aí vai.... Aliás, o Harold Bloom cita Borges 2 vezes no artigo sobre Fernando Pessoa e também cita Pessoa no artigo sobre Borges.

Por fim, ainda sobre o título, achei o seguinte fragmento sem data no livro Fernando Pessoa uma fotobiografia da Maria José de Lancastre (p. 280 da 2.ª edição):

Fernando Pessoa
 
O meu livro "Mensagem" chamava-se primitivamente "Portugal". Alterei o título porque meu velho amigo Da Cunha Dias me fez notar - a observação era por igual patriótica e publicitária - que o nome da nossa Pátria estaa hoje prostituído a sapatos, como a hotéis a sua maior Dinastia. "Quer v. pôr o título do seu livro em analogia com "portugalize os seus pés"?". Concordei e cedi, como concordo e cedo sempre que me falam com argumentos. Tenho prazer em ser vencido quando quem me vence é a Razão, seja quem for o seu procurador.


Bem, então, vamos lá! Quem se habilita a dar o pontapé inicial para a primeira parte ?
Edited by Watson, Jul 19 2011, 12:35 AM.
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Filipe
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Poirot
 
risco de "viajar", mas não posso deixar de me perguntar se não é este um aspecto inerente ao pensamento humano, muito além de ser de Portugal. Não é da nossa essência acreditar estarmos colocados em posição privilegiada no cosmos, no planeta e entre os animais; e que possa existir algo como o destino, a predestinação ou um "propósito" último para o existir, um objetivo final a ser alcançado?


Não sei, só estou a dizer o que aprendi. XD
Mas como o título original era Portugal, acho que se pode pensar assim...

Watson
 

Felipe, não sei se pela extensão (se não me engano um dos critérios utilizados por Aristóteles na poética), ou pelos vários pontos de semelhança com os demais épicos (principalmente com a Odisséia e a Eneida), mas tenho a impressão que Os Lusíadas se aproxima muito mais do épico puro, enquanto Mensagem sim parece um grande misto de lírica e épica, que ao meu ver não seria nunca passível de enquadramento como épico puro. Quanto à exaltação ao nacionalismo, mesmo que este seja "de letras" ou de "língua" (afinal, a pátria de Pessoa é a língua portuguesa), acho que Pessoa não conseguiu escapar a inegável influência de Camões. Basta ver que a própria estrutura do poema, já compreende as armas (=brasão, insígnia) tema evocado por Camões logo na proposição dos "Lusíadas" que começa com "As armas e os barões assinalados", trabalhando ambos os poemas com a idéia de cantar a raça.

Sim, concordo contigo. Mas Mensagem também é épico porque torna o povo português em heróis que partem para a construção do V Império, universal e eterno.

Watson
 
A partir do que vc falou, não seria Dom Sebastião uma personificação da esperança na metafísica Pessoana ? Talvez similar ao símbolo representado pelo Redentor na metafísica da religião cristã ?
Está a falar da dor de pensar de Pessoa? Não, D. Sebastião é a personificação do símbolo que irá construir o V Império.

Nem sequer sabia do Timbre no Brasão.

Oh god, não falei do herói pessoano nem no Quinto Império.
Enfim, como o prazo já acabou, eu falo quando for preciso.

Watson
 
Bem, então, vamos lá! Quem se habilita a dar o pontapé inicial para a primeira parte ?

Eu atrevo-me! Mas só vou dar informações sobre o Brasão

Ah! mas antes: Mensagem é uma metáfora para a história de um ser, ou seja, implica: Nacimento (Brasão), Realização (Mar Português) e Morte (O Encoberto).
Tem uma estrutura tripartida/triádica, símbolo de uma obra messiânica - Pai, Filho, Espírito Santo

Prontos! Brasão
Bellum1 sine bello2 (Guerra sem guerra)
1 - Combate de carácter espiritual
2 - sem a guerra cruenta do tempo histórico de Portugal

-Trata da formação de Portugal e do seu crescimento;
- temas e personalidades relevantes na formação mítica e histórica de Portugal;
- reis, príncipes, heróis fundadores de Portugal;
- Portugal realiza-se na Terra (território terrestre - 1º dinastia)
- 19 poemas; 5 subdivisões (I - Os Campos; II - Os Castelos; III - As Quinas; IV - A Coroa; V - O Timbre)

Agora que vejo, o cronograma está errado. o Brasão tem 5 subdivisões.
Desculpem não ter reparado antes. :-/
Edited by Filipe, Jul 19 2011, 11:53 AM.
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Aleph
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Amigos, desculpem primeiramente o teste.

Ousando entrar na discussão neste nível (rsrsrsrs), informo haver comprado a edição da Babel, cujas fotos postei a pouco para o grupo. Por recomendação, li na internet a introdução do Caio Gagliardi à edição da Hedra. Gostei muito, pela contextualização que ela nos oferece, e por encerrar fazendo votos de que que Pessoa talvez seja, ou venha a ser, reconhecido como o Encoberto. Confesso, entretanto, que fiquei um pouco preocupado depois, de ser demasiadamente influenciado por ela. Lembrei-me da advertência de Borges:

["Cuando mis estudiantes me pedían bibliografía yo les decía: 'No importa la bibliografía: al fin y de todo, Shakespeare no supo de bibliografía shakesperiana. Johnson no pudo prever los libros que se escribirían sobre él.' ?Por qué no estudian directamente los textos? Si estos textos les agradan, bien; y si no les agradan, déjenlos, ya que la idea de lectura obligatoria es una idea absurda: tanto valdría hablar de felicidad obligatoria" Siete Noches, BA, FCE, 1980, p. 107]

Acho portanto que errei. Devia primeiro ter lido a obra, antes de passear na crítica sobre ela. Não sei se pensam assim, mas as expectativas estéticas dos outros podem tornar-se as nossas, e frustrar-nos, quando procurávamos bem menos, algo mais, ou simplesmente coisa diversa. Leio por exemplo Tabacaria como um credo, dia sim dia não. E a todo instante o poema me surpreende. Mensagem também parece ter essa mística, embora esteja mais circunscrito a elementos históricos.

Percebo que se construiu algo como uma dogmática de Mensagem (o Encoberto que virá, pela estética, salvar o Portugal tal como Pessoa o via), e que, conhecendo-a de antemão, dela não poderei me livrar.

Há um paradoxo? ou apenas confusão de minha parte?

Mais: em 1903, apenas três anos após sua morte, Eça ganhou uma estátua em Lisboa, provocando escândalo pela recenticidade e porque, antes dele, apenas Camões fora agraciado com tanto. Alexandre Herculano, ALmeida Garret e inúmeros outros não possuíam tamanha glória. Pessoa, àquela altura, devia contar com aproximados quinze anos, e morava em Durban. Era-lhe, porém, impossível não conhecer estes fatos, porque entre 1901 e 1902 esteve em Lisboa, acompanhando o padrasto, de licença sabática (José Paulo Cavalcanti Filho).

Cuidando-se de louvar o gênio português, nada em Mensagem dialoga com a obra de Eça, ou de qualquer outro ilustre escritor português? Há omissão deliberada ou simples preferência pelo poema épico?

Abs.








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