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Mensagem; Leitura coletiva do livro Mensagem de Fernando Pessoa
Topic Started: Jul 8 2011, 10:26 PM (3,051 Views)
Watson
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002
[ *  * ]
Por falar em referências, na fotobiografia do Fernando Pessoa encontrei alguns fragmentos deste que esclarecem alguns aspectos do pensamento do Poeta sobre os personagens de Mensagem. Como qdo li a fotobiografia não estava em condições de marcá-las, posso ter deixado passar algum fragmento:

Dom Henrique
 
O infante D. Henrique é o perfeito tipo de sonhador. Desde a sua assexualidade até ao seu perfeito sacrifício dos outros - é um sonhador. Mas viveu no tempo em que se podia sonhar. Fragmento sem data (p. 278)


Dom Dinis e Dom Sebastião
 
Há um terceiro português, que começou a existir quando Portugal por alturas d´El-Rei D. Dinis, começou, de Nação, a esboçar-se Império. Esse português fez as Descobertas criou a civilização transoceânica moederna, e depois foi-se embora. Foi-se embora em Alcácer-Quibir, mas deixou alguns aprentes, que têm estado sempre, e continuam estando, à espera dele. Como o último verdadeiro Rei de Portugal foi aquele D. Sebastião que caiu em Alcácer -Quibir, e presumivelmente ali morreu, é no símbolo do regresso de El-Rei D. Sebastião que os portugueses da audade imperial projectam a sua fé de que a família não se extinguisse (p. 278).


Quinto Império e Bandarra
 
O futuro de Portugal - que não calculo, mas sei - está escrito já, para quem saiba lê-lo, nas trovas do Bandarra, e também nas quadras de Nostradamus. Esse futuro é sermos tudo. (p. 122)


Quanto ao Quinto Império, há duas figurações possíveis. A tradicional/material: 1º Babilônia, 2º- Medo -Persa, 3º- Grécia, 4º-Roma, 5º-duvidoso atribuindo-se a Inglaterra (interpretação dada por Daniel ao sonho de Nabucodonosor) e a portuguesa/espiritual: 1º-Grécia; 2º-Roma, 3º-Cristandade, 4º-Europa laica pós-renascença, 5º-duvidoso atribuído por Pessoa a Portugal (síntese do informado na p. 244 extraído do Prefácio à obra de Augusto Ferreira Gomes). O Poeta utiliza a última figuração.

Haja vista o comentário do Aleph, sobre a relação de Pessoa com os escritores portugueses da sua época, postei no tópico sobre Pessoa (aqui: http://s4.zetaboards.com/Clube_de_Leitura/topic/8860601/1/#new) imagem com o Diário de Leituras do Poeta na época em que estava em Durban. Por fim, haja vista o comentário do Mavericco, acabei lendo o A astronomia em Camões, leitura extremamente leve e agradável, sendo que para evitar o excesso de referências a Camões desviando o tema desse tópico, criei um tópico aqui http://s4.zetaboards.com/Clube_de_Leitura/topic/8912857/1/.
Edited by Watson, Jul 24 2011, 01:28 PM.
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Antonio Maria Pereira

Meus prezados amigos!

Obrigado pela acolhida fraternal! (Melhor diria filial, pela idade que nos separa, desde os meus mais de cento e dez anos!)

Amigo Poirot, acerca da suposta do Fernando em superar Camões, por você colocada ("É inegável, realmente, a influência de Camões em Pessoa, ou no Fernando, como você o chama com toda a intimidade que partilharam. No entanto, acredito que a maioria dos escritores que chegam a publicar uma obra literária, em algum recôndito de suas mentes, sonham em superar todos os grandes gênios que o precederam. Ainda que neguem esse desejo, inclusive para eles mesmos, essa pretensão (que é para quase todos um sonho louco) está lá."), devo fazer uma necessária distinção.

Fernando crítico deixa isso aparentemente transparente em "A Nova Poesia Portuguesa", como já discutido aqui ("...parece muito breve o aparecimento do poeta ou poetas supremos desta corrente... [que] deslocará para segundo plano a figura até agora primacial de Camões") - p. 27.

Mas lembro o Fernando poeta, da predileção do distinto Aleph:

"Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a hisória não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim...
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!"

A artrite impede-me de seguir digitando os trechos seguintes, igualmente reveladores, mas destaco:

"O mundo é para quem nasce para o conquistar
...
Mas sou, e talvez serei sempre,
...
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;"

Esse o Fernando que recordo! Ah... meu caro Fernando, colhido tão jovem da vida, deixando por aqui amigos tão longevos, esses sim os que não nasceram para tão altos voos.

Estou saindo de Sintra com a família. Volto depois.

Recebam o meu afetuoso abraço!

António

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Poirot
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001
[ * ]
Apenas um post rápido para marcar a virada do calendário. Depois passo com mais vagar para fazer algum comentário.

Quote:
 
até 18/07 - Prazo para obtenção do livro e discussão sobre aspectos gerais da obra
18/07 a 24/07 - Primeira Parte - Os Campos: Os Castelos
25/07 a 31/07 - Primeira Parte - Os Campos: As Quinas; A Coroa; O Timbre
01/08 a 07/08 - Segunda Parte - O Mar Português: de I - O Infante até VI - Os Colombos
08/08 a 14/08 - Segunda Parte - O Mar Português: de VII - Ocidente até XII - Prece
15/08 a 21/08 - Terceira Parte - O Encoberto
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Mavericco
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Nel mezzo del cammin
[ *  * ]
Começou ontem... Bem. Acho que a sequência de recapitulações dos fatos do Pessoa é mantida. Os poemas continuam belos ("Inutilmente? Não, porque cumpri" -- isso é genial!), o estilo continua forte.

O que ainda não consigo captar com exatidão é a razão de Pessoa dividir a Realeza a partir de uma sequência que não é tão retilínea... Digo: começa nOs Campos, vai para Os Castelos e depois volta para as Quinas. Talvez a sequência lógica seja: o campo português, a Terra (afinal de contas, é preciso que se exista uma terra -- e Pessoa começa descrevendo esta Terra primeiro em sua totalida [Europa] e depois especificamente ["O rosto com que fita é Portugal"]) que depois vai sendo povoado pelos Castelos que significariam a expansão desta terra ou simplesmente o caráter real-nobresco da situação (nobres nascidos para a guerra, se eu bem me lembro das aulas de história); e, nesta nova sequência, teríamos As Quinas que manteriam esta estrutura de defesa: isto é: se eu entendi da imagem que o Poirot colocou pra nós, As Quinas são escudos, certo? (no dicionário Quina é árvore, o que também poderia significar florescimento).

A próxima parte nós teríamos A Coroa como quase-cume desta coroação e, após isto, O Timbre, que seria a águia ou o monstrengo que irá aparecer mais tarde no poema e que, a meu ver, é sinônimo talvez metafórico ou simbólico dos voos que Portugal poderia ter com a concretização das profecias pessoanas.

Esta concretização seria dada com o último poema de O Timbre, o de Afonso de Albuquerque que possui um tom de concretização notório. Aliás, todo o Grifo possui este tom. Afonso desdenha; D. João O Segundo fita dalém mar; D. Henrique com o globo mundo em sua mão.

Todo este tom de profecia é correlacionado com a parte anterior, A Coroa, onde Nun'Álvares Pereira ergue a Excalibur (como antes o Conde D. Henrique havia erguido uma espada) com o fim de que "Para a estrada se ver!" A referência à Excalibur, a espada lendária que deu a realeza ao Rei Artur é um símbolo muito forte nesta ocasião, na medida que dá o Globo Mundo, deveras, por exemplo, na mão do português... Esta espada é provavelmente relacionada com a espada de D. Fernando, ao gládio divino dado por Deus ao mesmo...

Aliás, o fato de duas partes de realizações tão notórias estarem precedidas por um poema a D. Sebastião não creio ser coincidência. D. Sebastião é a figura principal de Mensagem...

Como outros destaques de leitura posso dizer que confundi bonito o Pedro do poema com o D. Pedro I...
Edited by Mavericco, Jul 26 2011, 11:28 PM.
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Watson
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002
[ *  * ]
Antonio Maria
 
Mas lembro o Fernando poeta, da predileção do distinto Aleph:

"Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a hisória não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim...
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!"


Além dessa, há passagens no Livro do Desassossego, na minha opinião a melhor obra do F.P. (que me perdoem os poetas!), que exteriorizam uma Pessoa muito mais humilde:

Bernardo Soares - Fragmento 262
 
Cheguei hoje, de repente, a uma sensação absurda e justa. Reparei, num relâmpago íntimo, que não sou ninguém. Ninguém, absolutamente ninguém


De se ressaltar que o heterônimo que escreve o livro (Bernardo Soares) é considerado por Pessoa como um semi-heterônimo, ou seja, apenas uma mutilação da personalidade do poeta. Se quiserem, consigo inclusive achar outras passagens. Por falar em desassossego, há na internet um documentário sobre o livro que parece ser bom http://www.youtube.com/watch?v=JBYmRtYb0zQ . Ocorre que, ao contrário do livro, não posso recomendar o documentário pois não o vi.

Quanto à passagem bíblica que dá origem ao mito do 5º império, é a seguinte:

Sonho deNebuchadnezzar
 
2:31 Thou, O king, sawest, and behold a great image. This great image, whose brightness was excellent, stood before thee; and the form thereof was terrible. 2:32 This image's head was of fine gold, his breast and his arms of silver, his belly and his thighs of brass, 2:33 His legs of iron, his feet part of iron and part of clay. 2:34 Thou sawest till that a stone was cut out without hands, which smote the image upon his feet that were of iron and clay, and brake them to pieces. 2:35 Then was the iron, the clay, the brass, the silver, and the gold, broken to pieces together, and became like the chaff of the summer threshingfloors; and the wind carried them away, that no place was found for them: and the stone that smote the image became a great mountain, and filled the whole earth.


Interpretação do Sonho por Daniel
 
2:37 Thou, O king, art a king of kings: for the God of heaven hath given thee a kingdom, power, and strength, and glory. 2:38 And wheresoever the children of men dwell, the beasts of the field and the fowls of the heaven hath he given into thine hand, and hath made thee ruler over them all. Thou art this head of gold. 2:39 And after thee shall arise another kingdom inferior to thee, and another third kingdom of brass, which shall bear rule over all the earth. 2:40 And the fourth kingdom shall be strong as iron: forasmuch as iron breaketh in pieces and subdueth all things: and as iron that breaketh all these, shall it break in pieces and bruise. 2:41 And whereas thou sawest the feet and toes, part of potters' clay, and part of iron, the kingdom shall be divided; but there shall be in it of the strength of the iron, forasmuch as thou sawest the iron mixed with miry clay. 2:42 And as the toes of the feet were part of iron, and part of clay, so the kingdom shall be partly strong, and partly broken. 2:43 And whereas thou sawest iron mixed with miry clay, they shall mingle themselves with the seed of men: but they shall not cleave one to another, even as iron is not mixed with clay. 2:44 And in the days of these kings shall the God of heaven set up a kingdom, which shall never be destroyed: and the kingdom shall not be left to other people, but it shall break in pieces and consume all these kingdoms, and it shall stand for ever.


Interessante que os Impérios se assemelham as raças de "Os trabalhos e os Dias":

Hesiodo
 
(ll. 121-139) But after earth had covered this generation—they are called pure spirits dwelling on the earth, and are kindly, delivering from harm, and guardians of mortal men; for they roam everywhere over the earth, clothed in mist and keep watch on judgements and cruel deeds, givers of wealth; for this royal right also they received;—then they who dwell on Olympus made a second generation which was of silver and less noble by far. It was like the golden race neither in body nor in spirit. A child was brought up at his good mother's side an hundred years, an utter simpleton, playing childishly in his own home. But when they were full grown and were come to the full measure of their prime, they lived only a little time in sorrow because of their foolishness, for they could not keep from sinning and from wronging one another, nor would they serve the immortals, nor sacrifice on the holy altars of the blessed ones as it is right for men to do wherever they dwell. Then Zeus the son of Cronos was angry and put them away, because they would not give honour to the blessed gods who live on Olympus. (ll. 140-155) But when earth had covered this generation also—they are called blessed spirits of the underworld by men, and, though they are of second order, yet honour attends them also—Zeus the Father made a third generation of mortal men, a brazen race, sprung from ash-trees 1304; and it was in no way equal to the silver age, but was terrible and strong. They loved the lamentable works of Ares and deeds of violence; they ate no bread, but were hard of heart like adamant, fearful men. Great was their strength and unconquerable the arms which grew from their shoulders on their strong limbs. Their armour was of bronze, and their houses of bronze, and of bronze were their implements: there was no black iron. These were destroyed by their own hands and passed to the dank house of chill Hades, and left no name: terrible though they were, black Death seized them, and they left the bright light of the sun. (ll. 156-169b) But when earth had covered this generation also, Zeus the son of Cronos made yet another, the fourth, upon the fruitful earth, which was nobler and more righteous, a god-like race of hero-men who are called demi-gods, the race before our own, throughout the boundless earth. Grim war and dread battle destroyed a part of them, some in the land of Cadmus at seven-gated Thebe when they fought for the flocks of Oedipus, and some, when it had brought them in ships over the great sea gulf to Troy for rich-haired Helen's sake: there death's end enshrouded a part of them. But to the others father Zeus the son of Cronos gave a living and an abode apart from men, and made them dwell at the ends of earth. And they live untouched by sorrow in the islands of the blessed along the shore of deep swirling Ocean, happy heroes for whom the grain-giving earth bears honey-sweet fruit flourishing thrice a year, far from the deathless gods, and Cronos rules over them 1305; for the father of men and gods released him from his bonds. And these last equally have honour and glory. (ll. 169c-169d) And again far-seeing Zeus made yet another generation, the fifth, of men who are upon the bounteous earth.


Quanto à concepção do Pessoa sobre o tema (quinto império), parece que ela foi tirada de uma obra de Vieira. Assim que conseguir achar a fonte para lembrar o nome da obra, posto aqui.

Poirot
 
Termino de ler um livro sobre física quântica e suas teorias dos muitos mundos e me descubro em um universo onde Antonio Maria Pereira ainda está vivo e discutindo em um forum na internet.


Por falar em física quântica, vc viu isso aqui http://s4.zetaboards.com/Clube_de_Leitura/topic/8913582/1/#new ?
Edited by Watson, Jul 31 2011, 03:32 PM.
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Watson
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Mavericco
 
O que ainda não consigo captar com exatidão é a razão de Pessoa dividir a Realeza a partir de uma sequência que não é tão retilínea... Digo: começa nOs Campos, vai para Os Castelos e depois volta para as Quinas. Talvez a sequência lógica seja: o campo português, a Terra (afinal de contas, é preciso que se exista uma terra -- e Pessoa começa descrevendo esta Terra primeiro em sua totalida [Europa] e depois especificamente ["O rosto com que fita é Portugal"]) que depois vai sendo povoado pelos Castelos que significariam a expansão desta terra ou simplesmente o caráter real-nobresco da situação (nobres nascidos para a guerra, se eu bem me lembro das aulas de história); e, nesta nova sequência, teríamos As Quinas que manteriam esta estrutura de defesa: isto é: se eu entendi da imagem que o Poirot colocou pra nós, As Quinas são escudos, certo? (no dicionário Quina é árvore, o que também poderia significar florescimento).


Pelo que entendi, os Castelos dizem respeito a episódios chaves ou seja às bases da formação da identidade mítica do povo português, os quais culminaram com a independência desse povo, forjando sua raça. Parece que a visão de Pessoa reflete suas leituras de Carlyle acerca do heroísmo, apesar de não corroborá-la por completo. Assim, a lenda do herói Ulisses fecunda a realidade para unir o povo Lusitano em torno de Ulissea (O myho é o nada que é tudo/ Este que aqui aportou,/Foi por não ser existindo/Sem exisitr nos bastou/Por não ter vindo foi vindo/E nos creou/Assim a lenda se escorre/A entrar na realidade/E a fecundal-a decorre). Essa identidade é reforçada pela defesa que Viriato faz dos lusitanos contra o Império Romano, sentimento esse que posteriormente reincarna à maneira da teoria das idéias de Platão (só porque lembra o que esqueceu) no povo português que se tornou independente de Castela (Vivemos, raça, porque houvesse/ Memoria em nós do instincto teu/ Não porque reincarnaste/Povo porque ressuscitou/assim se Portugal formou). A criação do Condado de Portucale cujo Conde é Dom Henrique dá substrato material à independência portuguesa (Todo começo é involuntário/O heroe a si assiste, vario/E inconsciente). Dona Tareja, sem o saber amamenta aquele que irá se levantar contra ela própria (Ó mãe de reis e avó de impérios/Teu seio augusto amamentou/Com bruta e natural certeza/ O que, imprevisto, Deus fadou). Se não houvesse a guerra entre mãe e filho (D. Afonso Henriques) não existiria Portugal (no antigo seio, vigilante/De novo o cria!). Dom Afonso Henrique define a independência e o Reino com a espada (A benção como espada/A espada como benção!). D. Diniz transforma esse reino em império marítimo (O plantador de naus a haver/ De império, ondulam sem se poder ver/Busca o oceano por achar/É a voz da terra anciando pelo mar). D. João I, mestre do templo, defende Portugal da invasão espanhola (Mestre, sem o saber, do Templo/Que Porgual foi feito ser/que houvesse a gloria e deste o exemplo/De o defender) e D. Phillipa de Lencastre que representando o acordo (casamento) com a Inglaterra consolida a posição do reino de Porgual (Princeza do Santo Gral/Humano ventre do Império/Madrinha de Portugal). Estabelecidas, às bases passa-se às quinas, à coroa, o timbre e às asas que redundarão no mar Português.
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Antonio Maria Pereira

Ia-me da minha quinta em Sintra quando tive de apressadamente despedir-me, pois a família aguardava. Por esses dias tive agravada a gota e escuso-me por afastar-me tantos dias de nosso colóquio.

Ao contrário do Poirot , nada entendo de Física Quântica, mas outro dia deparei-me com um interessante livro, “O universo elegante”, que lamentavelmente nada explica sobre a visão que tive, em um par de nuvens, da figura de Dom Sebastião retornando em seu cavalo de Alcácer-Quibir. (Ah... nós os portugueses padecemos de inafastável melancolia! Como disse um cantor daí, também vocês brasileiros herdaram do sangue lusitano uma certa dosagem de lirismo...)


Mas, dissera o amigo literato que os poemas continuam belos e o estilo forte. É por isso que, ao pegar este velho livro, sempre repasso todas as páginas.

Vejo a genialidade do Fernando em tantos versos:

“O Ocidente, futuro do passado.”

“A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar” (Não é shakespeariano isso? Aliás, o cotovelo direito é a Inglaterra, em ângulo disposto.)

“Sem existir nos bastou”

“Vivemos, raça, porque houvesse,
Memória em nós do instinto teu.”

“O homem que foi o teu menino
Envelheceu.” (Meus jovens, adquiri um exemplar da edição brasileira da Nova Aguilar, para mais de perto poder participar deste diálogo transoceânico – dirá Poirot intertemporal. Noto que, ali, não se faz menção à versão nula de D. Tareja, cuja última estrofe é a diferença:

“Dá-lhe a mão! Cego, ele é ninguém.
De onde estás , e não há o dia,
Sê filha de quem foste mãe!
Criaste: guia!” (Em minha edição de 34 trago esta versão junto à que prevaleceu).


Prossigo:

“Hoje a vigília é nossa.”

“É a voz da terra ansiando pelo mar.”

“Que archanjo teus sonhos veio
Velar, maternos, um dia?”

“A regra de ser rei almou meu ser.”

“Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois, venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma.”

“Fiel à palavra dada e á idéia tida.”

“Porque é do portuguez, pae de amplos mares,”

“Louco, sim, louco, porque quis grandeza”

“Braços cruzados, fita além do mar.
Parece em promontório uma alta serra – “ (Genial, meu caro Fernando!)

São tantas passagens! Apenas lembro, da edição que realizei no 34, um belíssimo verso da versão nula de Affonso de Albuquerque :

“..., e mais
Que a gratidão o merecel-a.”

Em par com o estilo forte, as rimas são sempre ricas, mesmo sendo um livro do modernismo português (por isso a métrica é irregular). Meus jovens, não tenho tempo para arriscar-me em novas leituras; o pouco que me sobra eu o uso para ler os clássicos, seguindo um prudente conselho de um poeta d´além mar, o João Cabral, de que a idade provecta recomenda a aposta nas barbadas. Mas tenho grande curiosidade se vocês saberiam me dizer quais são as tendências atuais da poesia. O que há de novo que vale à pena? (Outro prosador – poeta – de vocês dizia algo como “quando há um grande silencio, há um milagre acontecendo.”) Qual é hoje esse milagre? Pois há um grande silêncio.

A artrose impede-me de prosseguir digitando. Mas vocês notaram que a composição de Mensagem foi feita em anos muito variados, reordenados a posteriori conforme o plano da obra? D. Fernando é de 21-7-13, e vem depois de D. Duarte, que é de 26-9-28 (um ano maravilhoso, mas quantos amigos já se foram...)

Malgrado as idas e vindas no tempo, que parecem indicar o contrário, nunca indaguei ao Fernando, em se tratando de obra de veio épico, se ele previamente havia planejado esse caráter à obra, ou se isso ocorreu naturalmente quando reuniu as poesias que compuseram Mensagem, em torno do tema que o animou.

Já está tarde demais para este velho centenário.

Recebam um abraço caloroso!

António
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Mavericco
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Nel mezzo del cammin
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Watson
 
Pelo que entendi, os Castelos dizem respeito a episódios chaves ou seja às bases da formação da identidade mítica do povo português, os quais culminaram com a independência desse povo, forjando sua raça. Parece que a visão de Pessoa reflete suas leituras de Carlyle acerca do heroísmo, apesar de não corroborá-la por completo. Assim, a lenda do herói Ulisses fecunda a realidade para unir o povo Lusitano em torno de Ulissea (O myho é o nada que é tudo/ Este que aqui aportou,/Foi por não ser existindo/Sem exisitr nos bastou/Por não ter vindo foi vindo/E nos creou/Assim a lenda se escorre/A entrar na realidade/E a fecundal-a decorre). Essa identidade é reforçada pela defesa que Viriato faz dos lusitanos contra o Império Romano, sentimento esse que posteriormente reincarna à maneira da teoria das idéias de Platão (só porque lembra o que esqueceu) no povo português que se tornou independente de Castela (Vivemos, raça, porque houvesse/ Memoria em nós do instincto teu/ Não porque reincarnaste/Povo porque ressuscitou/assim se Portugal formou). A criação do Condado de Portucale cujo Conde é Dom Henrique dá substrato material à independência portuguesa (Todo começo é involuntário/O heroe a si assiste, vario/E inconsciente). Dona Tareja, sem o saber amamenta aquele que irá se levantar contra ela própria (Ó mãe de reis e avó de impérios/Teu seio augusto amamentou/Com bruta e natural certeza/ O que, imprevisto, Deus fadou). Se não houvesse a guerra entre mãe e filho (D. Afonso Henriques) não existiria Portugal (no antigo seio, vigilante/De novo o cria!). Dom Afonso Henrique define a independência e o Reino com a espada (A benção como espada/A espada como benção!). D. Diniz transforma esse reino em império marítimo (O plantador de naus a haver/ De império, ondulam sem se poder ver/Busca o oceano por achar/É a voz da terra anciando pelo mar). D. João I, mestre do templo, defende Portugal da invasão espanhola (Mestre, sem o saber, do Templo/Que Porgual foi feito ser/que houvesse a gloria e deste o exemplo/De o defender) e D. Phillipa de Lencastre que representando o acordo (casamento) com a Inglaterra consolida a posição do reino de Porgual (Princeza do Santo Gral/Humano ventre do Império/Madrinha de Portugal). Estabelecidas, às bases passa-se às quinas, à coroa, o timbre e às asas que redundarão no mar Português.


Agora deu pra dar uma clareada boa! Vou dar uma relida nesta parte e ver se consigo achar mais coisas ^_^

Antonio
 

Em par com o estilo forte, as rimas são sempre ricas, mesmo sendo um livro do modernismo português (por isso a métrica é irregular). Meus jovens, não tenho tempo para arriscar-me em novas leituras; o pouco que me sobra eu o uso para ler os clássicos, seguindo um prudente conselho de um poeta d´além mar, o João Cabral, de que a idade provecta recomenda a aposta nas barbadas. Mas tenho grande curiosidade se vocês saberiam me dizer quais são as tendências atuais da poesia. O que há de novo que vale à pena? (Outro prosador – poeta – de vocês dizia algo como “quando há um grande silencio, há um milagre acontecendo.”) Qual é hoje esse milagre? Pois há um grande silêncio.


Creio que possamos criar um tópico para tentar discutir nomes da literatura contemporânea. Particularmente, estou bem desconexo desta área; prefiro ter a certeza dos clássicos, sua montanha de ensinamentos...

Quem dirá que um nós não causará tormenta no futuro? Como o anjo do Canto IX do Inferno da Divina Comédia, a vir calmamente e abrir as portas do Inferno...

Antonio
 
A artrose impede-me de prosseguir digitando. Mas vocês notaram que a composição de Mensagem foi feita em anos muito variados, reordenados a posteriori conforme o plano da obra? D. Fernando é de 21-7-13, e vem depois de D. Duarte, que é de 26-9-28 (um ano maravilhoso, mas quantos amigos já se foram...)


Pude notar isto. Esta certa descontinuidade é algo que os épicos não podem compartilhar... Agora, pelo pouco que sei de Pessoa, creio que não duvidaria se no fundo sua reordenação ou sua própria data e modo de composição seguisse um esquema astrológico, um horóscopo rígido...
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Watson
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Antonio Maria Pereira
 
Ao contrário do Poirot , nada entendo de Física Quântica, mas outro dia deparei-me com um interessante livro, “O universo elegante”, que lamentavelmente nada explica sobre a visão que tive, em um par de nuvens, da figura de Dom Sebastião retornando em seu cavalo de Alcácer-Quibir. (Ah... nós os portugueses padecemos de inafastável melancolia! Como disse um cantor daí, também vocês brasileiros herdaram do sangue lusitano uma certa dosagem de lirismo...)


O livro do Brian Greene é bom (o Universo Elegante), mas achei o segundo melhor (O tecido do Cosmo). Quanto ao terceiro (The hidden reality) está ta minha fila de leituras, mas acredito que nenhum deles vai explicar a sua visão... Talvez para tal matéria seja mais indicado o livro do Padre Antonio Vieira :D .

Muito interessantes os versos por você trazidos! O interessante da leitura coletiva é que em uma primeira (e até numa segunda leitura), alguns destes me haviam passado completamente despercebidos....

Antonio Maria Pereira
 
Em par com o estilo forte, as rimas são sempre ricas, mesmo sendo um livro do modernismo português (por isso a métrica é irregular). Meus jovens, não tenho tempo para arriscar-me em novas leituras; o pouco que me sobra eu o uso para ler os clássicos, seguindo um prudente conselho de um poeta d´além mar, o João Cabral, de que a idade provecta recomenda a aposta nas barbadas. Mas tenho grande curiosidade se vocês saberiam me dizer quais são as tendências atuais da poesia. O que há de novo que vale à pena? (Outro prosador – poeta – de vocês dizia algo como “quando há um grande silencio, há um milagre acontecendo.”) Qual é hoje esse milagre? Pois há um grande silêncio.

Também sou muito afeiçoado aos clássicos... Tanto que qdo vc falou em João Cabral, já imaginei ele (e o Quintana) como poetas contemporâneos ^_^ ... De qualquer forma, vou criar um tópico para poesia contemporânea. Talvez mediante indicações eu anime a me arriscar um pouco nesse mar desconhecido que é poesia atual. Mesmo, assim, acho que sair de Fernando Pessoa e passar para qualquer poeta morderno é correr um sério risco de se decepcionar...

Antonio Maria Pereira
 
Malgrado as idas e vindas no tempo, que parecem indicar o contrário, nunca indaguei ao Fernando, em se tratando de obra de veio épico, se ele previamente havia planejado esse caráter à obra, ou se isso ocorreu naturalmente quando reuniu as poesias que compuseram Mensagem, em torno do tema que o animou.


Se não me engano ele queria escrever um Fragmento ou bosquejo Épico (não um épico propriamente dito). De acordo com o José Paulo Cavalcanti, o primeiríssimo título do livro (antes de Portugal) seria Homeridae. Aliás, no capítulo sobre mensagem, o José Paulo coloca uma fotografia do original de 1934 com o título Portugal riscado, a mesma que atualmente vem sendo editada pela Guimarães Editores em edição clonada ( http://blog.umfernandopessoa.com/2009/12/mensagem-clonada-guimaraes-editores-uma.html ).

Mavericco
 
Pude notar isto. Esta certa descontinuidade é algo que os épicos não podem compartilhar... Agora, pelo pouco que sei de Pessoa, creio que não duvidaria se no fundo sua reordenação ou sua própria data e modo de composição seguisse um esquema astrológico, um horóscopo rígido...

É bem possível mesmo que essas datas tenham sido estabelecidas com base em um esquema astrológico, igual se não me engano, a data de nascimento dos heterônimos.
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Mavericco
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Nel mezzo del cammin
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até 18/07 - Prazo para obtenção do livro e discussão sobre aspectos gerais da obra
18/07 a 24/07 - Primeira Parte - Os Campos: Os Castelos
25/07 a 31/07 - Primeira Parte - Os Campos: As Quinas; A Coroa; O Timbre

01/08 a 07/08 - Segunda Parte - O Mar Português: de I - O Infante até VI - Os Colombos

08/08 a 14/08 - Segunda Parte - O Mar Português: de VII - Ocidente até XII - Prece
15/08 a 21/08 - Terceira Parte - O Encoberto


Existe parte mais linda que "Mar Português"? O poema que dá o título à parte é belíssimo, de um lirismo sobrenatural, místico.

Possessio maris. O mar é nosso. Pelo menos nesta parte. Era ou é. Pessoa tem o caldeirão do mistério, é o "Espelho e a Esfinge" como diria Massaud Moisés...

Parecemos que entramos na parte onde Virgílio legou a grande fertilidade na literatura: os cantos de previsão do futuro. No caso do Mantuano, o VI da Eneida; no caso de Camões, o IX e o X. Nestes cantos, deuses aparecem para os heróis e dizem o que vai acontecer depois deles etc etc; evidentemente, pela diferença temporal entre o poeta e o tempo da narrativa, o tom de ubiquidade e de (esqueci o nome da palavra exactamente -- esta de prever o futuro) é bastante nítido e bem místico.

Com Pessoa, no entanto, a coisa tem um tom profético que lembra a IV Écloga de Virgílio, onde, durante a Idade Média, se disse que ele previu a vinda de Cristo à Terra. Algumas coisas Pessoa parece também prever em relação ao futuro...

Quem te sagrou, creou-te portuguez
Do mar e nós em ti nos deu signal.
Cumpriu-se o Mar e o Império se desfez,
Senhor falta cumprir-se Portugal!


Onde vemos a grande crise financeira de Portugal e o "rating" internacional português inclusive caindo...

E qual seria o método:

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte
Os beijos merecidos da Verdade.


É provável que Alberto Caeiro não corroborasse muito com esse tipo de pensamento... Sequer concordaria com "O mar anterior a nós, teus medos / Tinham coral e praias e arvoredos."!

Se prosseguirmos, com toda nossa alma pequena, conforme nos diz o próximo poema:

O esforço é grande e o homem é pequeno.

Topamos com uma das estrofes mais belas que eu já li (que estrofe não é? Meu Deus, que estrofe não é?!):

E ao imenso e possivel oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.


Depois é o Monstrengo. Provavelmente uma reencarnação do Gigante Adamastor da Eneida e de Os Lusíadas? Em Os Lusáidas ele guarda um rio, se não me engano... E cospe fogo e faz coisas tremendas, e os portugueses não sofrem muito por ultrapassá-lo, como se ele fosse apenas uma esécie de Ciclope Homérico que se deixa enganar-se por "Ninguém"...

«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;


Possessio maris.

Nem mesmo o fim existe mais. O mar sem fim já é de Portugal. Vamos colocar um epitáfio, então:

Jaz aqui, na pequena praia extrema,
O Capitão do Fim. (...)


(o verso: Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro. não consegui captar exatamente...)

E depois, os Colombos. Toca-nos, brasileiros, este poema. Sem muito o que comentar, Pessoa diz por nós mesmos todas as palavras que jamais diríamos:

É justa auréola dada
Por uma luz emprestada.


Porque emprestada? Porque ter é tardar.
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